sexta-feira, 14 de março de 2008

A Falta de Nãoporquevocêéumlabregomongodebilóidequenãosabeoquedizibilidade no Design.

Eu explico. A nãoporquevocêéumlabregomongodebilóidequenãosabeoquedizibilidade é a negabilidade credível de que gozam muitas actividades profissionais. No meu local de trabalho há técnicos e programadores de tudo e mais alguma coisa, que são constantemente confrontados com os pedidos absurdos de clientes na implementação desta ou daquela tecnologia ou funcionalidade. Uma típica reunião com a equipa técnica é qualquer coisa deste calibre:

- Queremos dinamizar a experiência do cibernauta adicionando funcionalidades específicas ao nosso site!
- Que funcionalidades tem em mente Sôtor Burocrata?
- Queremos que o botão back do browser redireccione o visitante para a nossa loja online e encha automaticamente o carrinho de compras com todos os produtos do nosso catálogo e lhe debite logo o dinheiro do cartão de crédito!
- Isso é uma ideia revolucionária e extremamente interessante Sôtor Burocrata, infelizmente a tecnologia actual não nos permite implementar essa funcionalidade (que é como quem diz: “Sim, eu sei que a vossa empresa vive às custas de projectos absurdos financiados por fundos comunitários e que provavelmente têm dinheiro suficiente para nos pôr a reescrever os browsers todos para que botão back faça o que quer, mas essa ideia é simplesmente estúpida, portanto não fazemos!”).
- Tem a certeza? Olhe que eu percebo destas coisas, até sou eu que programo o vídeo lá em casa.
- Tenho, Sôtor.
- Bem, se o diz é porque é verdade, você é que é o especialista.

As exigências técnicas inerentes ás tecnologias de informação, conferem ao programador um estatuto respeitável de especialista, o que lhe permite que a sua opinião informada de profissional seja aceite sem reservas.

No design não temos essa sorte.

O designer é tipicamente visto como o tipo que torna as coisa bonitas. Tem um trabalho importante, sem dúvida, mas inconsequente. Se o botão é verde ou azul, tanto faz, o verdadeiro trabalho já foi feito pelos programadores, e as coisas funcionam. O Sôtor Burocrata sabe disto, e anseia pelo momento em que possa meter o bedelho algures no processo, para tentar de alguma forma justificar o seu salário exagerado:

- Queremos dinamizar a experiência do cibernauta adicionando cor ao nosso site!
- O que é que tem em mente Sôtor Burocrata?
- Queremos que ponha na homepage um Pai Natal gigante a piscar o olho, com um letreiro em neon colado ao saco das prendas a dizer “Feliz Natal”!
- Isso é uma ideia revolucionária e extremamente interessante Sôtor Burocrata, especialmente porque estamos em Março. Mas infelizmente vai contra não só o grafismo do site, como de todo o visual limpo, sério e profissional que vocês próprios pediram.
- Tem a certeza? Olhe que eu percebo destas coisas do design. Tanto que no meu BMW topo de gama até pendurei uns dados de peluche no retrovisor e vesti o colete de sinalização no banco. Que carro conduz você?
- Eu conduzo a bicicleta BTT da empresa, gentilmente cedida pelo meu patrão quando me roubaram a minha no bairro degradado onde trabalhava antes... Sôtor.
- Pois. Então ponha lá o Pai Natal a piscar que vai ver que fica engraçado.

Este é o drama da falta de nãoporquevocêéumlabregomongodebilóidequenãosabeoquedizibilidade no design. Não há maneira de explicar ao Sôtor Burocrata o quão disparatada é a sua ideia, sem arriscar perder um cliente. E sem a negabilidade credível e o estatuto respeitável do profissional que sabe do que fala, não serve de nada afirmar “isso que propõe é uma aberração sem descrição, não dá para fazer”, porque no seu entender, o seu estatuto de Sôtor Burocrata torna-o automaticamente mais capaz que o designer em questões de design.

Mas o verdadeiro problema está eventualmente na própria natureza da actividade. Nem um bom design tem benefícios imediatos, nem um mau design é imediatamente catastrófico. O responsável que não entende que estes factores se verificam sim, mas não a curto prazo, fica com a ilusão de que o design é inconsequente. E é esta ilusão que o encoraja a interferir no processo.
Aposto que o Sôtor Burocrata não mandaria bitaites aos cirurgiões durante a sua angioplastia.

Para crédito do Sôtor Burocrata, há que dizer que, sem saber, até pode ter encontrado no Pai Natal gigante a piscar uma importante funcionalidade de segurança. Qualquer hacker que entre no site para o desfigurar, vai achar que este já foi atacado violentamente e que já está desfigurado que chegue, e desiste.

5 comentários:

Abobrinha disse...

Herr K

Não acredito: desabafos de artista incompreendido!

Um design pode ser desastroso se envolver letras vermelhas em fundo azul ou verde (ou o inverso): põe-me fisicamente mal disposta, pelo que não compro nada. Um Pai Natal em Março comparado com isso parece-me perfeitamente razoável.

Tornar as coisas feias ou com mau gosto é fácil e há mais que muita gente perfeitamente capaz destas tarefas. Torná-las bonitas não é nada fácil, embora possa parecer (e não é para qualquer um).

Eu conheço pessoas que mandariam bitaites a um cirurgião durante uma angioplastia. Que até perderiam tempo a explicar ao cirurgião como se faz isso e que depois da coisa feita ainda deitariam defeitos (independentemente de ter ou não sobrevivido!!!). Mas acho que se torna claro que eu ando com más companhias!

blogas disse...

Realmente.....um pai natal, então e o coelhinho da Páscoa? E os "obinhos"? :))))

Joaninha disse...

Mas vocês não viram o Pai Natal, era tãããão lindo! ;)

Nuno Coelho disse...

Confesso que não percebo essa questão do cirurgião e da angioplastia. Eu não teria a menor dúvida em mandar essas bocas, apresentar sugestões e, se necessário, corrigir os procedimentos do médico, na medida em que… Ah, espera… vocês querem dizer, durante a *minha* angioplastia? Isso é um poco diferente...

Krippmeister disse...

Bem visto Nuno. Agora relendo o texto também me pareceu que não estava muito claro que a angioplastia era a do proprio Sôtor Burocrata. Vou já editar.