sábado, 22 de dezembro de 2007

The Uncanny Valley

O desenvolvimento tecnológico na área da animação digital tem permitido cada vez mais a criação de personagens hiper-realistas, tanto para filmes como para videojogos. À medida que os actores virtuais se aproximam do ser humano em atitude, aspecto, e poder de representação, a resposta emocional do espectador à personagem vai aumentando. Dita a lógica que quanto mais real parecer a personagem, mais credível será, e isto verifica-se, mas só até certo ponto. Para se atingir a zona da credibilidade tem que se atravessar o Uncanny Valley.

O termo Uncanny Valley foi criado pelo cientista de robótica Masahiro Mori em 1970, e referia-se à inexplicável quebra na resposta emocional perante uma personagem robótica, à medida que esta se aproximava de um elevado nível de realismo. Por outras palavras, quanto mais real parecer o robô, mais estranho parece.

O gráfico representa a variação do nível de familiaridade (que se traduz na resposta emocional) face a um ser artificial, conforme aumenta a sua semelhança física e gestual com um ser humano.


O ponto mais baixo do valor de familiaridade representa uma resposta emocional negativa. A estranheza total. É o sentimento inquietante perante algo que é simultaneamente familiar e não familiar. Um pouco como ver uma pessoa muito parecida com alguém que conhecemos, mas que apesar de estarmos quase convencidos que é mesmo essa pessoa, há algo nas suas feições que não bate certo.
Neste nível elevado de similaridade, há um mecanismo subconsciente de percepção que procura falhas e diferenças para evitar que sejamos enganados. O resultado é esta dissonância cognitiva que perturba o processo de suspensão de incredulidade de que dependem o cinema e os videojogos.

Este mecanismo de defesa não é despoletado com o Ratatouille, por exemplo. Aceitamos um rato falante com aspirações a cozinheiro como aceitamos outras personagens animadas como o Pato Donald ou o Bart Simpson. Estão suficientemente longe do realismo para não nos sentirmos enganados, mas exibem tantas qualidades humanas que nos afeiçoamos a eles. Estão alto na escala, mas ainda longe do Uncanny Valley. Quando não há pretensão da personagem se fazer passar por humano, não se cria dissonância.

Final Fantasy: The Spirits Within de Hironobu Sakaguchi foi uma das primeiras tentativas sérias de criar actores virtuais hiper-realistas, e um dos primeiros trambolhões do cinema no Uncanny Valley. Curiosamente, os extraterrestres de Final Fantasy resultaram em personagens mais credíveis que os humanos, isto porque o mecanismo subconsciente de detecção de erros está especializado em interpretar reacções humanas, e não tem expectativa nenhuma em relação a extraterrestres.


Desconfio, aliás, que é precisamente esta expectativa que trama a Angelina Jolie virtual no Beowulf. Se por um lado criar personagens com a cara dos actores que lhes dão voz faz sentido tecnicamente, porque facilita a transição dos dados de captura de movimentos para o modelo 3D, por outro gera maior dissonância porque conhecemos bem os actores em questão e sabemos o que esperar da sua imagem.


O mesmo não já acontece com o Capitão Davy Jones em Pirates of the Caribbean: Dead Men´s Chest.
Davy Jones foi um sucesso na escala da credibilidade porque, para além das maravilhas técnicas que a equipe da ILM fez a nível de tecnologia de motion capture, render e shaders, o Davy não tem pretensões a ser humano. A representação de Bill Nighy transparece, especialmente nos olhos, mas não há intenção de reconhecer sequer o actor (apesar de eu, na minha genialidade observacional, o tenha reconhecido), mesmo porque a cara está totalmente coberta pelos tentáculos digitais da criatura. A equipa de efeitos visuais da ILM descobriu um equilíbrio perfeito com Davy Jones, que transmite humanidade, sem no entanto parecer realmente humano.


Actualmente, a chave para evitar o Uncanny Valley parece mesmo ser ficar ou longe do realismo, ou da morfologia humana. Duas soluções que a Pixar aprendeu a explorar de forma sublime.

Enquanto não chega o Avatar de James Cameron, com um sistema inovador de direcção de actores virtuais, é Beowulf que lidera a caminhada para o topo da escala. O filme faz uso das mais recentes técnicas e tecnologias de animação 3D, tecnologias essas que vou deixar para um post futuro para não causar mais dissonâncias gastro-intestinais aos leitores que conseguiram ler isto até ao fim.

Crossing the Great Uncanny Valley
Uncanny Valley Wikipedia

13 comentários:

Abobrinha disse...

Herr Krippmeister

Dissonâncias gastro-intestinais? Estás maluco! Uma gaja contigo só aprende!

Gosto particularmente de gráficos sem números: ficam bem em qualquer lado. Mas percebo o ponto de vista.

Gostei da "dissonância cognitiva". Não sei o que é, mas parece genial e menos mal-cheirosa que uma dissonância intestinal.

Não sei se concordo com a falta de expectativas em relação a extra-terrestres: os cientologistas são bem capazes de não concordar. Esses e os milhares de raptados por extra-terrestres.

Já agora, como é que acrescentaram os tentáculos ao rosto do Bill Nighy? Ou é complicado demais de explicar?

Krippmeister disse...

A dissonância cognitiva é quando se detêm duas crenças conflituosas em simultâneo. Neste caso, o reconhecimento consciente de que é a Angelina Jolie que está a sair da água, toda nua... molhada... com o corpo retesado do frio... os labios...AHAM! OK, é a Angelina, pronto. E por outro lado, a desconfiança subconsciente causada pela sensação de que aquilo é só um boneco artificial, e a tristeza da realização de que é o Brad Pitt quem realmente anda a aquecer a Angelina quando fica retesada :-(

Abobrinha disse...

E saber que o Brad Pitt só tem tempo para aquecer a Angelina depois de deitarem os três catraios (ou quatro?), admitindo que ela não fica com dores de cabeça e ou que ele não adormece ao lado da cama depois de 2 horas a tentar adormecer o mais rebelde para depois se levantar e o estouro do joelho dele acordar esse, que ao chorar acorda o outro e a Angelina tem que acordar para ir adormecer esse (quando até já tinha acordado e estava pronta para rockar!), para demorarem mais 1 hora a adormecerem os dois e o da Angelina ter adormecido só depois de um biberãozinho, mas de mão agarrada à mamã (o estuporzito fez de propósito!) e que ela não consegue largar menos que duas horas e 3 sonos depois para encontrar o Brad a ressonar e a babar-se e pensar "porra, estrelas ou não, ressonam da mesmíssima maneira". Quando ele finalmente acorda não tem energia para mais e ela dorme o sono dos justos e está com um ar de "se me acordas mostro-te o que aprendi na Lara Croft, mas é a parte da porrada de criar bicho, meu morcão!".

Gostaste? Sempre às ordens para dar cabo de uma fantasia. Afinal... é Natal! E eu sou uma querida! Antes que me chames má, isto é uma noite normal: eu seria má se descrevesse uma noite em que um deles estivesse com uma otite. Uma noite verdadeiramente má seria uma otite num e uma gastrite noutro! Sim, eu sei que sou uma peste! Se me tivesses perguntado, eu tinha-te dito!

Krippmeister disse...

Que dramática.

Abobrinha disse...

Herr Krippmeister

Dramática??? Eu???? Não haja dúvida que és muito observador! Eu sou é uma desmancha-prazeres às vezes! Mas só às vezes! Quando me levam com jeitinho sou o oposto...

Eu fiz-te um favor: a Angelina é igual às outras mulheres. Com a luz apagada. Assim, podes contentar-te com outra qualquer, apagar a luz e pensar "Angelina, filha, eu não ressono!".

Por outro lado, podes tentar convencer alguma gaja mais crédula que és tal e qual o Brad Pitt. COm a luz apagada. E que não ressonas.

E se um dia estiveres a pensar ter filhos, já sabes o que a casa gasta. E que é indiferente se tens a Angelina ou outra qualquer parecida com ela quando a luz está apagada.

Krippmeister disse...

Por acaso devo confessar que a Angelina não me diz nada. Mesmo a Angelina digital, que é bem mais sexy que a real.

Quanto a convencer alguma mulher de que sou o Brad Pitt, não sei como conseguiria fazer isso, mas desconfio que teria que envolver a ingestão abundante de cugomelos alucinogánicos.

Já estou a preparar o post sobre o Davy Jones. Stay tuned!

Abobrinha disse...

Herr Krippmeister

Um dia destes tenho que ir espreitar o teu caixote do lixo. Desconfio que pode ter qualquer coisinha que me interesse.

Esqueces-te de uma coisa: uma pessoa apaixonada tem padrões cerebrais característicos de esquizofrenia, pelo que pode não ser assim difícil convencer alguém que és o Brad Pitt. Por via das dúvidas, para onde eu vou tem cogumelos. Se me pagares bem, eu trago. Não sei se dão alucinações, mas alguns hão-de destruir o fígado em umas horitas. Claro que há o pequeno efeito secundário que uma gaja sem fígado morre, mas... olha, não és tu que gostas do Tim Burton? Então! "A noiva cadáver"!!!

Mmmmm... isto está pior do que eu
pensava: humor tétrico... ... ...

Na volta dá menos badalhoquice só fazeres com que alguém se apaixone por ti. É bom para o fígado.

Abobrinha disse...

Herr Krippmeister

Não quero apressar um génio, mas eu sábado fico desligada do mundo (por falar em alucinar...).

Olha que tu és muito bem mandado! Que mais é que fazes se eu te pedir?

bruno disse...

ahaha!
gostei deste canto!
parabéns.
ainda é uma descoberta de 2007!
senão já marcaria pontos em 2008!

abs

Krippmeister disse...

Olá Bruno. Bem vindo ao Krippart!

Krippmeister disse...

"Olha que tu és muito bem mandado! Que mais é que fazes se eu te pedir?"

Abobrinha, se me pedires com muito jeitinho, mas mesmo muuuuuito jeitinho...


...faço um post sobre o Transformers.

Abobrinha disse...

Herr Krippmeister

Venho por este meio rogar a sua suma sapiência e reverendíssima autoridade nas cousas da bonecada, teoria da arte e design e badalhoquice teórica e aplicada (vertente analítica, psico-sociológica, sócio-comportamental e esotérica) o subido favor de nos brindar com uma recensão crítica (sobretudo de recensão estiver bem escrito, que não tenho a certeza) sobre aspectos técnicos e artísticos da película "os tranformers".

Use e abuse de CAGA e das desconstruções lógicas e ilógicas das desconstruções de... olha... daquelas cenas que me inspiram e fazem rir e para as quais agora não tenho inspiração suficiente para javardar. Ou então mostra lá à tua maneira, que eu gosto à mesma. E se não gostar, não tenho papas na língua em dizer.

... pleeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeease!

Venho ainda pedir umas provocações, porque no meu lado as coisas estão a ficar muito sérias. Pior que isso, não tenho tido inspiração para falar sobre fufas! É grave! De todo o modo, amanhã ficarei des-computorizada, por isso tens tempo.

Com os melhores cumprimentos

Abobrinha

P.S. Isto é com jeitinho suficiente ou tenho que te subornar com uma massagem. Recordo que tenho um grande conhecimento de cremes hidratantes e... bom, não interessa!

Abobrinha disse...

Ouve lá, e o Bill? Só à noite é que terei tempo para ver o post novo. Mas deve ser genial!